Tabarca

18.07.26 — Alicante

Tabarca

18.07.26 — Alicante

Estamos todos confortáveis demais. É o que diz uma nota no meu celular, datada de 8 de janeiro de 2014. O que eu estava fazendo naquele dia? Nada, segundo a minha agenda. Estava filosofando, pensando em como costumamos evitar assuntos desconfortáveis nas nossas conversas do dia a dia. Incomodava-me a ideia de que evitar esses temas difíceis acabasse levando a uma estagnação social. São palavras fortes. Fortes demais para uma tarde de segunda-feira. Por isso, hoje não vou falar sobre o conforto em sentido abstrato, mas sobre o conforto físico.

Eu me sinto mais confortável nesta época do ano. Faz sol, mas também faz um friozinho agradável. Não há chuva que me encharque nem vento que me deixe descabelado. Sou filho do norte da Inglaterra, então não aguento muito calor. Pelo visto, segui meu próprio conselho quando Sara sugeriu que voltássemos a Alicante. Talvez eu estivesse confortável demais debaixo do ar-condicionado do meu apartamento em Madri. Talvez tenha pensado que era justamente aquela umidade pegajosa do litoral leste que estava precisando.

Assim como da última vez, me diverti muito com Sara. Comemos muito bem, experimentamos um ou outro coquetel e até fomos conhecer Tabarca. Foi ótimo, mas todas essas atividades acabaram ficando um pouco ofuscadas pela umidade sufocante do verão alicantino. A cada passo que dávamos para fora do hotel, eu ficava com assaduras entre as pernas e, depois de cada garfada, precisava recorrer ao guardanapo para enxugar as gotas de suor da testa.

Às vezes me sinto completamente integrado à Espanha, mas aí meu corpo entra em cena e me lembra que o sangue que corre por essas veias superaquecidas é anglo-saxão. Não aguento o calor como Sara.

Mas a beleza de olhar para o passado é que o tempo cura todos os males. Nesse processo, apagou da minha memória qualquer vestígio de desconforto. Agora, só penso nos restaurantes charmosos, no nosso passeio pela ilha de Tabarca e nas conversas intermináveis que tivemos até altas horas da madrugada. Sorrio ao me lembrar da primeira noite. Quando saímos do hotel, entrei em pânico ao perceber que já estava tarde e que não tínhamos feito reserva para jantar. Sara me disse para não me preocupar, pois já tinha se antecipado e reservado uma mesa em um restaurante ali perto. Ela lê meus pensamentos.

Talvez meu eu de 19 anos estivesse certo. Talvez eu esteja confortável demais. Talvez devesse me jogar no calor da Costa Blanca com mais frequência.