Tren de la Fresa

26.10.25 — Madri

Tren de la Fresa

26.10.25 — Madri

Enquanto eu estava deitado na cama, com a perna quebrada e imóvel, tive muito tempo para pensar no que faria quando estivesse curado e de pé novamente. O primeiro item da lista de ideias era “viver novas experiências com amigos”, com “novas” sublinhado para dar ênfase. Por isso, soube exatamente o que precisava fazer ao ver um anúncio do Tren de la Fresa, um trem histórico que oferece excursões diárias em outubro: convenci Sara e Fernando a embarcarem numa viagem comigo.

Nós três nos encontramos no Museu Ferroviário em uma manhã de domingo, cansados e irritadiços, para sermos recebidos pelos gritos de uma mulher fantasiada com o uniforme histórico de um condutor de trem. Horrorizado, percebi que havia levado meus amigos para uma experiência interativa feita para crianças, com atores e tudo.

Depois de nos sentarmos a bordo, cercados por muitas famílias jovens, o trem começou seu trajeto até Aranjuez. Ficamos conversando e tudo parecia bastante normal até que dois atores apareceram com malas. Eles começaram a gritar um com o outro em uma discussão que eu não consegui acompanhar, mas Sara, Fer e eu começamos a rir daquele espetáculo bobo.

O que não sabíamos era que o melhor ainda estava por vir. Depois da apresentação improvisada, começou a tocar música nos alto-falantes, e os atores incentivaram todo o vagão a cantar com eles a música do Tren de la Fresa. Nós já não conseguíamos nos segurar e acabamos morrendo de rir.

Ao chegar a Aranjuez, trocamos os bancos de madeira do trem pela última fileira do trenzinho turístico, um trem que circula pelas estradas, igual aos que eu via nos povoados de Mallorca onde passava as férias de verão quando era criança. Depois veio um passeio de barco pelo rio e, em seguida, um almoço no qual provei pernas de rã pela primeira vez. Eu diria que tinham gosto de frango, mas, na verdade, tinham gosto do alho com que haviam sido preparadas.

Durante a viagem de volta, tivemos que cantar novamente a música do Tren de la Fresa, mas desta vez com uma tigela de morangos na mão, uma referência ao uso histórico do trem para transportar a colheita de morangos de Aranjuez até o centro de Madri.

Foi naquele momento, enquanto eu cantava “tren de la fresa, tren de la fresa, baila sin parar y mueve la cabeza”, que percebi que até os planos mais bobos, na companhia de bons amigos, se tornam incríveis. Seja comer morangos frescos, cantar uma música boba ou passar de uma plataforma a outra entre os vagões, é preciso levar a vida —e a segurança— um pouco menos a sério.

Gaga e convidados

13.10.25 — Manchester

Gaga e convidados

13.10.25 — Manchester

Ao viver em um clima quente, acabei pegando gosto pelas estações de transição. Minha estação favorita tem que ser a primavera, embora eu também goste do outono, já que ele não traz os efeitos horríveis da astenia primaveril. O outono deste ano se caracterizou por ser o oposto de fadiga e irritabilidade: eu não parei!

Minha principal tarefa foi atuar como anfitrião para um sem-fim de convidados durante o mês de outubro. Minha irmã e seu parceiro passaram lá em casa, o que foi a desculpa perfeita para celebrar o noivado deles provando comidas deliciosas. Rhea fez sua visita anual e passamos muito tempo fora juntos, já que no ano passado ela teve que cuidar de mim e da minha perna quebrada. María também me visitou por um fim de semana, a oportunidade perfeita para reunir os ex-Erretres e mostrar a ela mais cantinhos do meu bairro.

Mas não fui apenas anfitrião, também fui convidado ao voar para a Inglaterra no meu confiável voo da Ryanair. O principal motivo da viagem foi um show da Lady Gaga, ao qual fui com minha irmã. Foi incrível, apesar de eu ter chegado cansado ao estádio. Ainda bem que a Gaga sabe que seu público está ficando mais velho e fez questão de que todo mundo tivesse um assento para se sentar.

Para encerrar outubro, decorei minha casa para o Halloween. Não é um feriado que costuma me interessar, mas parece que quanto mais você faz, mais vontade dá de fazer ainda mais coisas. Por isso comecei novembro igualmente agitado, com a sala cheirando a abóbora queimada, tudo graças à quantidade ridícula de velas que eu acendi…

Interrail

09.09.25 — Paris

Interrail

09.09.25 — Paris

Agora eu acredito na supremacia do trem. Tá certo, viajando de trem você demora mais do que de avião, mas aqui estou eu, instalado em um assento espaçoso depois de uma visita ao vagão restaurante para pegar um sanduíche recém feito que comi deitado em um sofá. Tem coisas para ver pela janela, tem WiFi e se economiza bastante tempo e estresse por não precisar lidar com aeroportos: que são, de longe, os espaços mais hostis construídos pelos seres humanos.

Meu passe Interrail também já me salvou de alguns infartos. Saber que é tão simples quanto pegar o próximo trem caso eu perca uma conexão não tem nada a ver com o sufoco de correr pelo aeroporto de Doha para alcançar o próximo voo. Eu achava que viajar de trem pela Europa era algo mais de adolescente, mas a flexibilidade de poder subir em quase qualquer trem me deixou muito tranquilo.

Isso também me permitiu rever amigos e visitar lugares que eu já queria conhecer fazia tempo. Das montanhas altas da Áustria até a imensa planície da Holanda, vivi contrastes geológicos impressionantes, explorei cidades e vilarejos lindíssimos e me deparei com paisagens naturais que pareciam tiradas de um documentário da National Geographic.

A viagem começou e terminou com algumas noites em Paris, passando por Barcelona. Na ida, fui a um parque de diversões com Danni e, na volta, fiquei algumas noites como turista solteiro. Durante as outras três semanas, subi as montanhas com Loredana, comi uma pizza caseira deliciosa feita pelo David, me refugiei sob um toldo durante um jantar chuvoso na Alemanha com María e percorri alguns vilarejos da Holanda com Cami. Conheci as famílias dos meus amigos, os amigos dos meus amigos e até os amigos deles também. Inclusive fiz alguns novos amigos pelo caminho, muitas vezes nos lugares mais inesperados. Conversei com dois americanos em um ônibus turístico e fechei um restaurante junto com a garçonete e o cozinheiro.

Depois de passar três verões seguidos nos Estados Unidos, é verdade que senti falta da companhia dos meus amigos de lá. Mas essa viagem europeia foi o equilíbrio perfeito entre viajar sozinho, reencontrar amigos e ficar hospedado na casa de outros que, por um motivo ou outro, acabaram vivendo em diferentes cantos do continente. Eu já queria fazer um giro pelo meu continente natal fazia tempo, e justo este ano tudo se alinhou para que fosse possível. O acidente que sofri no ano passado fez com que eu ainda estivesse reaprendendo a andar na época em que, normalmente, já estaria procurando voos para os EUA. Sem falar no preço do seguro de viagem depois de uma cirurgia, que pesou bastante!

Foram férias de verão incríveis, e só foram possíveis graças a todos os amigos que me acolheram em suas casas e que me acompanharam pelo caminho. A todos vocês: muito obrigado. Em breve, já estarei novamente subindo em um trem…

A volta do Kevin

05.08.25 — Oviedo

A volta do Kevin

05.08.25 — Oviedo

O problema de ser imigrante e ter amigos imigrantes é que nenhum de nós fica parado. Kevin era um espanhol na Inglaterra quando nos conhecemos, mas depois se mudou de volta para a Espanha. Eu fiz o mesmo alguns meses depois, mas pouco tempo depois Kevin foi morar nos Estados Unidos. Eu fiquei por terras espanholas na ausência dele, levantando o país.

Como Kevin não pode voltar para casa com frequência, a oportunidade que normalmente temos de nos ver é a minha viagem anual para a América do Norte. A partir deste ano, suspendi essa viagem: em parte pelas sequelas do acidente, em parte pelo clima político nos EUA.

Então, quando Kevin me ligou para dizer que estaria nas Astúrias por algumas semanas no verão, não demorei a pegar um AVE para visitá-lo. O tempo com Kevin é sempre bem aproveitado, e ainda mais quando ele vem à Espanha, já que topa sem hesitar qualquer coisa que pareça divertida. Por isso, comemos como reis, exageramos na sidra e passamos a noite inteira em uma festa de prau. O auge daquela noite, em especial, foi ver Kevin arrastar uma cadeira de plástico no meio de toda a multidão para que eu pudesse sentar e descansar o joelho em plena festa. Que cara.

Mas não vi só o Kevin. Também nos encontramos com Raquel e Joel, que conheci pela primeira vez durante a gargalhada que foi o Descenso del Sella. Era hora de comemorar, já que os dois tinham acabado de comprar um terreno para construir uma casa juntos. Eles nos levaram até o lote deles para fazer um petisco, tomar mais um pouco de sidra e comer umas costelas da churrasqueira ao lado. Foram as melhores que já provei na vida, e ficaram ainda melhores graças à companhia incrível e à paisagem linda.

Desse jeito, talvez nem seja necessário declarar novamente o meu amor pelas Astúrias e sua gente, mas vou fazer mesmo assim. Estar com o Kevin é garantia de risadas, conversas longas e profundas, e estar nas Astúrias é aproveitar a boa comida e a beleza do campo aberto. As duas coisas juntas? Perfeição.

Dra. Briggs

01.08.25 — Sheffield

Dra. Briggs

01.08.25 — Sheffield

Lembro-me de ter gritado com a minha irmã uma vez. Estávamos no jardim dos meus pais, onde eu tinha inventado mais uma armadilha mortal qualquer, como um passeio de trenó por uma viga inclinada. Fiquei com raiva porque ela não quis subir. Foi assim que começou a nossa adolescência, uma época em que não dávamos muita atenção um ao outro além de alguma discussão ocasional.

Quase vinte anos depois, estávamos na Universidade de Sheffield, onde Eleanor tinha se preparado para a sua formatura. Vê-la aparecer vestida de vermelho vivo no meio de um mar de capas pretas foi um momento emocionante para todos. Não seria uma formatura qualquer: minha irmã estava se tornando a doutora Briggs!

Não pude entrar na cerimônia por causa da lotação, mas me diverti no bar da universidade com o parceiro da Eleanor e algumas amigas dela. Jogamos bilhar, lançamos alguns dardos e assistimos à transmissão ao vivo da cerimônia na televisão que ficava acima da nossa mesa. Assim tive a oportunidade de finalmente associar rostos aos nomes que Eleanor mencionava havia anos. E também estaria mentindo se dissesse que não foi um alívio pular as partes mais entediantes da cerimônia até chegar à categoria que nos interessava: doutores em filosofia.

Quando as formalidades terminaram, era hora de comemorar como se deve. Tomamos alguma coisa, vimos o laboratório onde Eleanor tinha trabalhado e caminhamos até o centro de Sheffield para almoçar. O dia estava ficando longo para mim e para o meu pai, mas nada que não pudesse ser resolvido com uma soneca estratégica nos bancos de uma mesa mais afastada…

Como você pode imaginar, tenho muito orgulho da minha irmã. Ainda me lembro do dia em que ela nos anunciou que queria ser bióloga, mas nenhum de nós imaginava que, tantos anos depois, ela sairia da universidade já como doutora. Também não teria acreditado se, durante aqueles anos em que brigávamos por bobagens, alguém tivesse me dito que acabaríamos nos dando tão bem. Hoje valorizo muito a relação que temos e a facilidade com que a mantemos.

Parabéns, Bel.