Heidi e Axel

15.06.25 — Oslo

Heidi e Axel

15.06.25 — Oslo

¿Vestiários unissex? Ficou claro quem éramos os anglo-saxões do grupo: Megan e eu não conseguíamos acreditar. Contorcíamos o corpo dentro das toalhas numa tentativa de não nos expormos ao casal de senhores ao nosso lado, perguntando-nos como os noruegueses tinham tido a ideia de todos compartilharmos um mesmo vestiário minúsculo.

Os mesmos noruegueses também dizem que tomar banho na água gelada do fiorde faz bem para a saúde, mas eu sou a prova viva de que não faz. Desviei das águas-vivas ameaçadoras e evitei desmaiar no calor opressivo das saunas, mas alguma outra coisa não me fez bem durante a nossa excursão de “bem-estar” ao spa flutuante. Acordei bem resfriado nodia seguinte, o que acabou sendo um problema, já que era um dia muito importante. Heidi e Axel iam se casar!

As celebrações já tinham começado alguns dias antes. Em um bar aleatório de uma Oslo chuvosa, os quatro membros do Cake Club nos reunimos pela primeira vez em anos. Esse reencontro continuou no dia seguinte com um piquenique sob um glorioso momento de sol. Foram dois programas cheios de conversa enquanto nos atualizávamos antes do grande acontecimento.

O casamento de Heidi e Axel foi um dia cheio de amor, risadas e — no meu caso — paracetamol. Com os olhos marejados, vi dois bons amigos se casarem diante de vistas espetaculares sobre o fiorde de Oslo. Depois entramos todos em um salão lindo para comer, conversar e dançar a noite inteira em uma celebração que continuou até aparecerem umas salsichas enroladas em tortillas de milho. Para mim pareceu um jantar duvidoso, mas os noruegueses adoraram…

Brincadeiras à parte, o casamento foi tudo o que Heidi e Axel queriam — e mais. Também foi a oportunidade perfeita para reencontrar velhos amigos e fazer alguns novos pelo caminho. Nunca tive dúvida de que Heidi e Axel se rodeariamde pessoas maravilhosas, mas me senti honrado por ter sido convidado a participar. Esses dias que passei em Oslo também me permitiram passar tempo de qualidade com Megan, Loredana, David e muitos outros. Não há nada melhor neste mundo do que aquelas conversas de madrugada que se estendem tanto que o sol começa a aparecer por entre a cortina.

Viva Heidi e Axel!

Risoterapia

10.05.25 — Blackpool

Risoterapia

10.05.25 — Blackpool

Tem sido alguns meses difíceis para todos ao meu redor. Tenho avançado na minha recuperação física e minha família tem enfrentado alguns assuntos pessoais que nos desafiam a todos.

Esses tempos de provação, combinados com o fato de que eu não conseguia visitar minha terra natal há quase um ano inteiro, fizeram com que eu embarcasse num avião para Manchester com mais entusiasmo do que nunca. Pouco depois, reencontrei meus pais e minha irmã para alguns dias de descanso e convivência sob uma rara e muito apreciada onda de sol na Inglaterra.

Tive que trabalhar remotamente por alguns dias, mas o apagão nacional na Espanha fez com que eu tivesse uma das tardes de folga. Apesar do caos que se seguiu pela Península Ibérica, aquilo foi uma bênção para mim: ganhei ainda mais tempo para ficar com minha família.

Também reservei um tempo para encontrar duas amigas muito queridas. A Amber me levou para almoçar em um ensolarado parque local e, no dia seguinte, peguei um prato de fish and chips e fui até a casa da Jemma para colocarmos a conversa em dia depois que ela me visitou em Madrid, pouco antes do meu acidente.

No sábado, saí com a Abi e a Danni para um dia em um dos nossos lugares favoritos no mundo: o Blackpool Pleasure Beach. Foi um dia legal neste parque de diversões: muitas montanhas russas, comidas e algumas pessoas absolutamente incríveis para observar. Blackpool é uma joia de lugar e um verdadeiro fenômeno cultural. Não vou deixar ninguém me convencer do contrário.

Mas, acima de tudo, foi um dia cheio de risadas, e era exatamente o que eu precisava. Fiz minha fisioterapia, minha hidroterapia e minha psicoterapia: só me faltava a alegria de rir até perder a voz e, com isso, perder completamente o fio dos pensamentos. Eu precisava dessa euforia arrebatadora, daquelas que fazem todas as preocupações e ansiedades desaparecerem.

Esse dia com amigos coroou uma semana passada com as pessoas que mais me conhecem: minha família. Essa viagem foi exatamente o que eu precisava.

Xixón

21.04.25 — Gijón

Xixón

21.04.25 — Gijón

A alta da fisioterapia e a volta ao trabalho significavam que eu teria, enfim, a liberdade de viajar. Desde o acidente eu não tinha podido sair da Comunidade de Madrid, então comecei a procurar algum lugar — qualquer lugar — para onde ir. Essa busca por uma mudança de ares, naturalmente, me levou para as Astúrias.

Astúrias é um lugar ao qual sempre voltarei. Desde que meu amigo asturiano Kevin me apresentou a região, senti uma forte atração por esse pedaço da costa norte. Sua gente, sua paisagem, sua comida: algo tem essa região celta que a faz parecer acolhedora para mim.

Quando Sara me disse que iria visitar sua cidade natal, Gijón (Xixón em asturiano), soube para onde tinha que ir. Pode não ser a cidade mais interessante nem a mais bonita da península, mas é um lugar pelo qual tenho muito carinho.

Permiti-me o luxo de um hotel e também não economizei na hora de pedir comida. O desejo insaciável de fazer tudo o que antes não tinha podido me lembrava da época pós-pandêmica, um período em que todos buscávamos, como loucos, viajar, celebrar e simplesmente viver um pouco mais depois de tanto tempo trancados em casa. Passei tempo com Sara e seus amigos, bebi sidra embora não devesse e fiquei vendo o pôr do sol do quarto do hotel que me custou um bom dinheirinho. Eu me sentia desafiador, me sentia bem. Já tinha tido minha primeira prova da normalidade, mas esta era a primeira prova da liberdade — e a primeira prova de um cachopo decente em bastante tempo…

Volto ao trabalho

16.04.25 — Madri

Volto ao trabalho

16.04.25 — Madri

Ao voltar a ganhar força no joelho, eventualmente pude deixar as muletas completamente. Isso foi uma ótima notícia para a minha recuperação, mas uma péssima notícia para o meu assento garantido no metrô. Eu já tinha me acostumado bastante a esse pequeno luxo durante minhas viagens à clínica de fisioterapia.

Depois, de um dia para o outro, recebi alta. Numa terça-feira à noite, enquanto jantava sushi com o Fernando, contei que no dia seguinte teria que ir ao escritório em vez de ao hospital. Em seguida, o despertador me arrancou do sono para o meu primeiro dia de volta ao trabalho.

Alguns reclamariam por ter que voltar — a maioria do pessoal da fisioterapia lamentava a ideia —, mas eu estava animado. A perna doía um pouco no começo, mas não me importava, já que voltar à rotina e ter um propósito me fez muito bem. Eu também tinha sentido falta dos desafios criativos e, mais do que tudo, da companhia dos meus colegas. O afastamento tinha me dado tempo para refletir sobre a sorte que tenho de trabalhar em um setor tão interessante e com gente fantástica.

O melhor de tudo foi que voltei a certa normalidade justamente na primavera. Assim pude aproveitar um jantar pelo aniversário da Sara, sair com amigos para comemorar o meu e até passar uma hora assistindo a uma orquestra durante as festas de San Isidro.

Eu voltava a me sentir eu mesmo.

Mareo

09.04.25 — Madri

Mareo

09.04.25 — Madri

Ao cair da bicicleta, meu joelho não foi a única vítima. Enquanto eu jazia na ambulância ouvindo as sirenes lá fora, minha preocupação saiu da dor na perna para o que eu poderia ter perdido na queda. Vi que estava sem um sapato, mas a enfermeira me garantiu que ele estava junto com minha mochila no chão. Então conferi meus bolsos atrás da carteira, das chaves e do celular.

Este último parecia ter sobrevivido bem, apesar da minha relutância em usar capa protetora. O vidro da frente e o de trás estavam intactos. Pensei que ele tinha saído ileso, até perceber que metade de uma das lentes da câmera havia sumido. Merda.

Mais tarde, enquanto esperava o resultado do raio‑X, comecei a tirar nervosamente os últimos fragmentos de vidro da lente quebrada, até que todo o módulo da câmera ficou exposto. Aí conferi qual das três câmeras do meu celular tinha quebrado e descobri que foi a lente de zoom 0,5x.

Meu primeiro instinto foi sair procurando um celular novo. Há um tempo eu esperava uma desculpa para aposentar meu iPhone 12, e essa parecia perfeita. Nos dias seguintes em casa, me ocupei vendo opções, desde iPhones recondicionados até Androids.

Mas então passei a tirar fotos com a câmera quebrada. Descobri que as imagens ficavam borradas, com contraste exagerado e uma perspectiva estranha. Enquanto eu manquitolava com dor e muletas, as fotos que eu fazia ficavam vertiginosas e desorientadas: exatamente como eu me sentia. Tudo parecia muito apropriado, então acabei não trocando de celular.

Estas são algumas das fotos daquele período.

O título deste post, “Mareo”, é uma palavra em espanhol que significa tontura ou vertigem. Acho que ela resume bem a minha experiência.