Seis horas me bastam para voar da Espanha ao Canadá, mas passar seis horas no carro não é considerado nada estranho nos Estados Unidos. Foi isso que Megan me disse enquanto dirigia rumo a Boston, a cidade onde ela estudou e que fica a cerca de seis horas de carro de Burlington.
Boston é o lugar mais europeu que já me pareceu entre todos os lugares dos Estados Unidos onde estive. O metrô tinha um clima parisiense, as ruas pareciam inglesas e os cannoli que devoramos tinham gosto de Itália. Eu me sentia em casa até ver as pessoas com seus bonés e seus sotaques ianques falando em ir ver o “ball game”.
Acontece que era justamente ao ball game que Megan e eu estávamos indo. Um lugar chamado Fenway Park é a casa do Boston Red Sox, um time que me soava vagamente familiar e do qual Megan é muito fã. Ela conseguiu uns ingressos de última hora enquanto o som do hino nacional ecoava pelo estádio, uma experiência bastante estranha para um estrangeiro. Tínhamos assentos bem no alto das arquibancadas, mas nos infiltramos em um lugar melhor quando algumas pessoas foram embora durante o jogo. Para mim isso tanto fazia, já que ainda não entendo esse esporte em que os jogadores parecem passar a maior parte do tempo parados, sem fazer nada. Por isso, passei a maior parte do tempo experimentando os melhores/piores pratos típicos do estádio.
Naquela noite, enquanto atravessávamos uma ponte sobre o porto, o céu desabou. Chegamos em casa encharcados até os ossos, por isso foi um milagre não termos pegado resfriados sérios no dia seguinte, quando entramos no carro a caminho do próximo destino: Rhode Island.
A parte paterna da família de Megan vem do menor estado do país, um lugar com um sotaque bastante peculiar. Aprendi isso enquanto provava o famoso clam chowder em um restaurante de frutos do mar com vista para a praia. Passamos alguns dias na companhia da tia e da prima de Megan, mas também conseguimos escapar para tomar um bom sorvete, comer em um lugar moderninho e passar a última noite caminhando pela praia até um bar mítico de frente para o mar.
Enquanto curtia a música country ao vivo nessa taverna cambaleante e cheia de personagens, refleti sobre como cada decisão e acontecimento da minha vida tinha me levado a estar nesse lugar aleatório, nesse momento específico. Mas só depois de conseguir me desgrudar de uma senhora bêbada com chapéu de cowboy, que tinha me obrigado a dançar com ela, tive a chance de pensar melhor nisso enquanto conversava com Megan e observava as ondas. Percebi que não havia lugar melhor para estar naquele momento.














