Há momentos em que eu fico bastante irritadiço. Depois, tenho dificuldade para entender por que estou tão irritado, o que acaba me frustrando. Essa frustração, por sua vez, só me deixa ainda mais insuportável. Quem me conhece sabe o quanto eu consigo ser um pé no saco quando estou nesse nível de desânimo.
Às vezes, esse mal-estar acontece porque cheguei ao meu limite e simplesmente estou precisando descansar de verdade. Mas, em outras ocasiões, a causa é mais complexa e difícil de descobrir. Talvez eu precise de um tempo para entender o que está acontecendo comigo. “Um tempo” soa suspeitosamente parecido com “um descanso”, então, sejamos realistas, o que geralmente me faz falta é um bom retiro.
Percebi isso pouco antes da Semana Santa e resolvi fazer algo que venho cogitando há anos: procurei um hotel-spa cinco estrelas. Não me importava onde fosse, eu só queria que as decisões mais importantes do meu dia fossem escolher a proporção entre salgado e doce no café da manhã e decidir se a água da banheira de hidromassagem ficaria quente ou morna.
Enquanto escrevo isso, percebo que estou sendo bem insuportável. “Funcionário corporativo vai para um hotel de luxo porque entrou em burnout” não é exatamente a história mais original, nem uma com a qual a maioria das pessoas consiga se identificar. Consigo ouvir meu eu do passado me julgando: problemas de primeiro mundo, reveja seus privilégios, etc. Mas, sinceramente, é o que é. Conforme fui ficando mais velho, comecei a entender meus pais e a insistência deles em passar quinze dias por ano esticados numa espreguiçadeira em Mallorca. A vida adulta cansa.
E foi com esse cansaço existencial nas costas que enfrentei o desafio de organizar uma viagem. Antigamente, viajar sempre significava a empolgação de planejar, a graça de pegar um trem ou um avião e ideias como “o importante não é o destino, mas a viagem”. Hoje em dia, é uma trabalheira enorme que eu preciso suportar para chegar aonde quer que seja. Por isso, e apesar de todas as minhas ressalvas em relação à terceirização cognitiva, abri o ChatGPT. Como meu cérebro já estava completamente frito, imaginei que usá-lo não conseguiria me fazer mais mal.
E foi assim que acabei em Tarragona. Desci do trem numa estação que a toda-poderosa IA havia me informado, com absoluta confiança, que ficava perto do hotel. Cheguei lá depois de 45 minutos e 55 euros de táxi: uma boa dose de karma depois de passar tanto tempo dando sermão em todo mundo sobre a importância de verificar tudo o que a inteligência artificial diz.
Ao fazer o check-in no hotel, fiz check-out da vida. Joguei o celular dentro do cofre e troquei o tênis por um par de chinelos de algodão. Dividia meu tempo entre o spa, a piscina e a praia. Acho que nunca tinha passado tanto tempo usando um roupão. E, justamente quando eu começava a ficar entediado de tanto relaxamento e solidão, encontrei alguém com quem passar o resto do tempo… mas essa já é uma outra história.
Embora eu não fizesse absolutamente nada do ponto de vista físico, uma disciplina na qual sou um verdadeiro especialista, meu cérebro demorou mais para relaxar. No começo, todo aquele ambiente luxuoso era apenas um cenário bonito para os meus pensamentos. Refleti sobre muitas coisas, mas a principal foi a necessidade de entender por que eu sentia tanta vontade de fazer um retiro como aquele. A conclusão a que cheguei foi bastante simples e um tanto óbvia: eu precisava, de uma vez por todas, de um maldito descanso.





