Você se lembra da pandemia? Eu também não. Sempre me fascinou a capacidade do cérebro humano de esquecer as coisas ruins e lembrar das boas. Percebi esse fenômeno depois das nossas férias em família em Orlando, que foram maravilhosas, mas também envolveram muitas horas em filas sob a umidade sufocante da Flórida. Ainda assim, quando voltamos para a Inglaterra, eu só me lembrava da emoção das atrações, da magia dos desfiles e das risadas quando todos descobrimos que o chocolate dos Estados Unidos tem gosto de queijo.
Me desviei do assunto. Mencionei a pandemia porque foi nessa época que comecei a valorizar algo que antes considerava garantido: caminhar. Caminhar é algo que passei a apreciar e desfrutar, mas não queria entediar vocês relacionando o tema ao meu acidente. Não quero dedicar mais um texto a me alongar contando como quebrei a perna.
Então: a pandemia. Passei alguns meses trancado no meu pequeno apartamento aqui em Madri, esperando ansiosamente pelo dia em que nos deixariam sair para dar uma volta rápida, nem que fosse por pouco tempo. Esse alívio finalmente chegou com as caminhadas diárias autorizadas pelo governo: uma hora para esticar as pernas e encher os pulmões de ar fresco e livre de vírus. O exercício humano mais básico havia se tornado um luxo. Desde então, minhas caminhadas são sagradas para mim.
Ultimamente, essa nova perspectiva tem me levado a aproveitar qualquer oportunidade para visitar um lugar novo. Aceitei com entusiasmo o convite do Fer para visitar Segóvia e também o da minha tia, que me convidou para passar alguns dias em Múrcia. Eu estava com vontade de calçar meus tênis confortáveis (lembre-se de que já tenho 30 anos) e descobrir o que suas ruas escondiam.
Revisando as fotos que tirei, vejo que o que mais me impressionou nos dois lugares foi a beleza do antigo, estivesse ele bem conservado ou não. As casas velhas de Segóvia e seu aqueduto romano têm uma imponência inevitável, mas os cantos enferrujados daquele vilarejo murciano também me encantaram… talvez até mais do que Segóvia.
A que conclusão cheguei depois dessa reflexão? Não faço ideia. Nem são 8 da manhã ainda, e estou sentado no aeroporto de Madri, esfregando os olhos e terminando um café. Ainda assim, enquanto me preparo para passar duas horas sem poder mover as pernas, aguardo com entusiasmo minha chegada a Milão e as muitas horas de caminhada que me esperam. Acho que é isso, no fim das contas: uma carta de amor ao ato de caminhar.







